30 outubro, 2012

Graves frequências

A morte levou consigo
coisas que jamais verei novamente
sabores que nunca mais serão os mesmos
lugares distantes onde nossos pés não pisaram.

Onde está a inspiração?
Aquela que move, que cria?

A expectativa é algoz da coragem, agora que toda palavra é carregada de significado e energia
e mesmo o medo intrínseco dos 'eus' tomarem o controle da situação
já não pode ser arrefecido pela confiança, irmã mais velha da desculpa e dos cubos de gelo.

(aqui é simples, gostoso e natural)
entrega
é um barril de nutella
ou uma caixa de paçocas

(aqui é onde estou só novamente)
entrego
também as vísceras de cada monstro
nocauteado em minha alma

apesar de estar cansado eu continuo a caminhar para onde (D)eus quiser.

22 outubro, 2012

Pretinha

Dorme mais um pouquinho
deixa que eu preparo um café
quando estiver pronto eu te acordo
pra gente desenhar essa manhã na toalha

Acende um jardim pra me ensinar de vez do que nós somos feitos

Eu quero você por perto,
por cima, de conchinha

Um passeio alucinado é esse teu cheiro de hortelã molhada de sereno depois de um dia ensolarado.
Pretinha, quando chegar aquele fim de tarde faz um bolo pra gente só pra eu derreter no seu colo.

20 setembro, 2012

Uma casa no deserto

Quatro paredes sem janelas. Apenas uma porta.
É pra lá que eu vou quando preciso demolir
a descrença e todos os meus demônios

Esperava o que?
Talvez um sinal, uma palavra, qualquer sinal, qualquer palavra.
(O tempo escorria pela rachadura na parede)

Procurava o que?
Talvez um pedido, cinco letras, qualquer pedido, qualquer letra.
(O tempo rachava a frágil parede)

Destinado a encontrar o vazio,
Este imenso infinito de nada
onde o amor não tem espaço
e os cactos crescem viçosos

Chico

17 setembro, 2012

Gratidão ao velho Hazz - (Sonhos)

Meu bom amigo Hazz.
Este sentimento assusta quando vem?
Quero dizer quando chega assim desse jeito;
inundando a cidade e arrastando o sol pela gola da camisa?
.
Sabes por que te digo isto?
Porque Sofia é prova de sua existência.
não apenas ela, mas também presentes de lá
de lugares onde estivemos despertos de sua ausência

Me pergunto se os Dragões vivem algo semelhante...

Quando digo que é assustador não significa que sou eu.
Sim, são os outros! Mas ainda bem que tenho você.
Pois confesso; naquele instante pensei em desistir.

Foi por pouco, e quase me deixo 'quedar'
Lembrei de suas palavras e fechei os olhos
Voltei ao jardim, onde minhas bolas de gude brincavam sem gravidade
então eu pude dançar, sem tempo nem espaço a nossa forma de amar.

Francisco de Assis

16 setembro, 2012

O abrupto dos ventos

Experimentei calçar os teus sapatos e refazer meus passos
e de nada adiantou,
Pedalei em direção ao sol as 4h da manhã ouvindo Stones
foi reconfortante,
Cheguei até o porto e meu barco ali estava me esperando
foi uma bela vista,
Assim um pescador me avisou: - Vem tempestade pela frente!
icei a vela e parti,
Então senti a primeira rajada de vento velejando a seis nós
não senti medo,

apenas uma tristeza de quem partiu rumo a tempestade.


08 setembro, 2012

(Des)encaixe

Minhas mãos desenham no ar o seu corpo
procurando o encaixe perfeito das tuas escápulas

Meu peito insiste em guardar um pedaço de nuvem
daqueles que parecem algodão doce

Mas no olhar é que se vê o quanto existe
de ácido e corrosivo, de corpo atravessado

Os pés hesitam em refazer caminhos
os nós dos dedos e cada palavra dita

Olho para as minhas mãos e abraço esta condição!
O que eu poderia temer deste fascínio?

Acho que foi assim, entendendo um pouco de nada
neste momento ainda mais,
vejo o quanto entendo,
um pouco de nada




06 setembro, 2012

Palavras de um Dragão (Hazz)

E quando tudo isso parecer estranho
esse sorriso transbordará a tua morada
E quando tudo isso vier a te nocautear
esse peito amortecerá todos os golpes
E quando tudo isso não fizer mais sentido
esse coração receberá o seu espírito, luz.

19 agosto, 2012

Sem saber pra onde ir

Um tanto esse novo quanto expresso em pedaços de gente
Do que exatamente nós precisamos para acabar com isso?

Vazio, inóspito, impregnado de vácuo este coração não anseia,
apenas bate e bate a "percepção rotativa" de Charles Mingus,
destilando batidas dentro do circulo mesmo sabendo e sentindo
que o pulso está ali, que a rítmica esta ali, que a paixão está ali

Eu vejo crianças famintas através do vidro do automóvel
o sol pinta a cor da desigualdade no rosto daquela menina
A vida acontece e revela esta bigorna presa ao calcanhar
Seremos capazes de enxergar com os olhos do coração?

Francisco de Assis
de mil em mil rosas
não conto mais espinhos
ainda lembro
esquecer não posso
tudo é caminho
da rosa que põe cor na vida
de branco a vermelho
dou passos entre dias
recolho meus olhos
fechando a noite
fazendo rimas.

Flor do cerrado

24 julho, 2012

Trinta Voltas

A primeira a chegar foi uma jabuticabeira
dividindo espaço com os antigos araçás
demorou dar frutos, mas cresceu forte

Logo veio bromélia, laranjeira, olhos-de-mulata, garapuvu
borboleta, alecrim, hortelã, ipê, araucária e gralha-azul
joão-de-barro, comigo-ninguém-pode, goiabeira, capim-limão
rosa branca, arruda, violeta, pimenta-de-cheiro, manjericão

Os pais semearam sonhos com brilho de jardim nos olhos
As crianças fizeram parquinho e cercado com pedrinhas

Este jardim nasceu ali,
cresceu ali, no coração deste rapaz.

Francisco de Assis

19 julho, 2012

Café da manhã

Está presente aquele olhar, preso no redemoinho do liquidificador.
Meias lembranças, alguns momentos inteiros e outros ainda inéditos
Ao mesmo tempo tão vivos no mundo etéreo dos sonhos e das promessas
que quase posso tocá-los na goma da tapioca que esquenta na frigideira

Assim como o bobo sonha do alto do edifício, rabiscando versos no caderno
Eu rasgo os papéis para (re)escrever aquilo que agora estou deste momento,

mesmo em face da ausência,
de toda a mesma indiferença,
olho para trás, olho para frente e sinto chegar um sorriso de infância
e com ele sempre vem a tão esperada gargalhada que me toma.

E novamente eu olho para o chão.
Alguma coisa mudou em mim
Alguma coisa mudou em nós.

"...Por sempre andar, andar, sem nunca parar pequenas coisas vão ficando para trás..." ¹


Chico

1 -  Trecho da música  Por sempre andar dos Paralamas do Sucesso

10 julho, 2012

Diálogos - para Já basta II de Charles Raimundo

"...Já é hora do jogo virar, disposto, na sede Meu caso é grave, eles querem sacudir as redes / Eu vim pra arrancar a trave...”
"Emicida"

Se não existe, criaremos
Se não funciona, um de nós conserta
Se vem de cima, temos asas
Se vier de baixo, conhecemos o terreno
Se for pra somar, estamos juntos 
Se tentar sub(trair), multiplicamos o fogo
Se for pra dividir, estamos juntos
Nossa determinação é maior.
Quer tentar a sorte? Eu não.
Acredito no amor, acredito nos meus.

Francisco de Assis


09 julho, 2012

Poesias pra vida!

Façamos poesias unidas
vamos plantar juntos
o jardim
a horta
o bosque
a floresta
a selva
até o pântano
dos nossos dias
façamos poesias pra vida!

Flor do cerrado

06 julho, 2012

A concordância de Soonanda

...nossos corações batem juntos, por isso somos um...

Sou pai, sou filho, sou irmão
Sou fogo, sou terra (canção)

Sou homem, sou mulher
Semente, folha e caule
sou fruto que dá no pé

O doce do próximo acorde
E as conversas das melodias
Nessa alegria que nos envolve

Sou água lambendo a terra

Quando mais nada disso for
ainda assim serei música

Assis Monteiro



29 junho, 2012

A noite do meu velório - (Sonhos)

Esta noite tive um sonho estranho, assustador, cômico, hilariante
estava deitado em um caixão sendo velado e pude ver tudo distante.
Minhas mãos, a cabeça, ergui os olhos e vi; da beirada do caixão
rostos sisudos dilacerados em canapés. Ninguém me viu até então.

Reconheci os meus pais chorando e foi então que percebi
que poderia entrar em seus pensamentos e ver tudo que se passava ali.
A dor era tão grande que fui obrigado a sair de lá correndo, sem pensar

Afinal, eu pensava ?
Não.
Na verdade sonhava e a cada instante, imenso, desértico e lancinante
sentia saudades da Sofia, dos instrumentos, dos amigos e dos livros na estante

Lá a Sofia estava bem maior, devia ter uns vinte e poucos anos de idade
não tive coragem de entrar em seus pensamentos, mas tive curiosidade

Encontrei um amigo de muito tempo e fui depressa ver o que ele pensava
Ele estava "preocupado por não ter pego a camisa que ficou emprestada"

Ali estava ela, mais velha, cansada e bem diferente de quando nos conhecemos,
tive curiosidade de saber o que ela pensava e entrei em seus pensamentos
Mesquinha! Absurda! Sem coração! enquanto eu morria ela pensava na pensão.

Sai correndo daquela ratoeira e voei para os pensamentos do meu irmão
Ali encontrei uma bagunça tremenda, tinha família, eu grande, ele pequeno
fotos, contra-baixo, recordação de viagem, livros e um estojo de maquiagem

Quando cansei de  assistir aquele filme bizarro e minhas forças haviam esgotado
voltei para minha nova "cama" lentamente, escorrendo como calda de caramelo.
Havia me recolhido para dentro do caixão quando a vi atravessar pela porta;

Os olhos inchados denunciavam o choro, o peito enconlhido, os ombros caídos,
chegou tímida, não conhecia minha família, não conhecia os amigos que ali estavam.
Deu vontade de chorar ao vê-la assim, aquela moça morena que tanto me fez sorrir
não perdi tempo, juntei o último suspiro que me restava e voei para seus pensamentos

Não vou descrever aqui o que vi nem o que senti, apenas uma coisa importa dizer:

Naquele instante eu morri nos braços dela, embebido em sua pupila num sono sem fim.

Assis Monteiro

11 junho, 2012

Um ser de areia (no tempo)

Poderia entregar-te meu anseio de não saber o que fazer com isso?
Daria assim um belo filme pra assistir com balde de pipoca no colo.
Poderia arriscar mostrar-te um quadro borrado guardado no sótão?
Um belo retrato de vida paisagem nos dias de solidão do sem fim.

Poderia dar-te todas as minhas chaves de casa, das portas às gavetas?
Seria um molho pesado e um belo passa (tempo) para sua curiosidade.
Poderia levar-te pelas ruas desertas de onde nasce o terror e o espanto?
Desceriam todos os anjos vestidos de sangue para dançar seus passos.

Poderia?
Sim poderia.
Mas não quero.

Assis Monteiro

06 junho, 2012

Já basta II

Incas, Astecas, Maias, Guaranis, Kaingangs, Carijós.
Povo bravo e guerreiro presente em cada um de nós.
A música, a poesia, os desenhos na parede são as nossas armas
Quebramos as bandeiras, agora é a nossa vez.
Tome cuidado sistema
não carregaremos mais merda pra vocês

Charles Raimundo

04 junho, 2012

Colheria meia dúzia de silêncios


Colheria meia dúzia de silêncios sortidos
E poria - os em vasos
Fitaria suas pétalas desnudas
ao picar salsinha
enquanto a faca pousa
bem devagar
sobre a tábua.

Colheria meia dúzia de silêncios sortidos
Uns dois daqueles constrangedores,
Quatro ou três de satisfação,
Pegaria apenas um e não mais,
Do silêncio moreno dos teus olhos.

Fato: sempre há de se colher silêncios ruidosos
Daqueles cheios de frases que não dizem nada.

Um punhado que não caísse das mãos
Dos silêncios que brotam quando nos fitamos cansados,
com os dedos falando em carinho,
digitais por cima das peles.

Feito erva daninha,
Vem, quase sem escolha,
Um tanto de silêncios por não saber o que dizer.

E um vaso só pra ele:
Silêncio de fim de dia.

Pensando assim, 
já são quase duas dúzias de silêncios.
É que há tanto para se dizer.
Enquanto a faca desliza cortando as folhas da salsa.

Ainda assim,
duas dúzias de silêncio
Não calariam nossas perguntas,
Não cessariam nossos dizeres.

Colheria duas ou três duzias de silêncios
Para te falar das coisas que não entendo.

Colheria um silêncio viçoso 
Só pra te acalmar os olhos,
E podermos nos ter assim,
Ruidosos,
na madrugada.

Colheria meia duzias de silêncios,
e ficaria na tua porta,
Te esperando,
de jeans e chinelos.
Te olharia nos olhos
E munida de silêncio
Nada diria.
Tudo seria claro, certo e entendido.
Te levaria pelos lábios
E desceríamos a rua sem palavras.
Mãos atadas
Rua a fora.
Dançaríamos na noite abraçados
Beberíamos os tropeços e os saltos

Silêncios risonhos brotariam nas calçadas.

Colheria meia duzias de silêncios,
Quem sabe duas, quem sabe doze.

E colheria quantos fossem necessário,
pra dizer - te,
dos silêncios amorosos que carrego,
e que não se valem das palavras para mostrar-se.

Colheria meia duzia de silêncios sortidos,
Poria - os em vasos,
Enquanto pico salsinha,
E espero você chegar.

21 maio, 2012

bio(grafia)

Sem palavras para dizer do que somos feitos
O poro preenche a vibração de seus átomos
Cheiro de campina molhada, pasto, siriguela.

Falei com mamãe; ela contou que você não está bem
Falei com meu irmão; ele contou que nada está bem
Você perguntava; "como você está filho, tudo bem?"

Lembro a mesinha de centro,
o cheiro de cachaça boa,
a cor da madeira do seu violão.
Eu ainda sonho com a viagem.

Tinha farinha, manteiga de garrafa, rapadura
feijão de corda, baião de dois e doce de leite
pamonha, cuscuz, bolo de fubá, café preto

Filmadora, fotografias, fumo-de-corda e a barba de meu avô
Suas palavras ainda tem o peso de mil sóis em meus sentidos

Querem que eu desista, mas pode ficar tranquilo, não o farei.
Cantarei uma canção pra você, aquela do Milton Nascimento:

"Amigo é coisa pra se guardar, do lado esquerdo do peito..."

Júnior

09 maio, 2012

Seja meu corpo por mim

A pedra nasce pedra
A flor nasce uma flor
O ser humano nasce

Não se engane, sou otimista,
peço água em minhas orações
Me emociona o sorriso honesto
o olhar curioso e despretensioso

Entretanto você insiste;
catalogar, enquadrar, aparar
cercear, customizar, dizimar

Até a mais alta hipocrisia putrefata
de seu ideário natalino e deformante

A pedra vai morrer pedra
A flor vai morrer uma flor
O ser humano vai morrer "algúem"

Francisco de Assis