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14 janeiro, 2014

Estrago

Eu confesso que cheguei a acreditar
que um dia após o outro poderia resolver
que um trago após o outro poderia resolver
logo eu que só quis sonhar e sonhar e sonhar

Cale a boca dura e seca
e corra atrás do seu quinhão
dia a dia na labuta
vivendo a própria solidão


faz um tempo alguém me disse
que cada um tem seu destino
que todos tem a mesma chance
que é só uma questão de afinco

Colhe aquilo que plantou
e planta o mundo que aprendeu
aprende a vida que ensinou
e vive os sonhos que escolheu

Não é preciso ser profeta
muito menos ser cantor.
Sentir que tudo está do avesso
pra alguns não há escolha, nem direito
nada cabe mais no pensamento

vida torta, vida suja, vira vida, vida muda

Me deixa viver em paz
do jeito que só eu sei.

25 novembro, 2013

Recesso

Troquei os óculos mas não adiantou.
Nem sei. Deveria?
Adiantar algo?

Ontem decifrávamos qualquer presença
e hoje sigo sem enxergar as cores
saboreando o caminho que escolhi
desconstruindo antigos ritmos.

é tanto medo guardado,
é tanto medo aguardando.

O quê de coragem faltante, foi suficiente,
e deu o ar daquilo que não gostamos de ver.

é tanta dúvida torta,
é tanta dúvida morta

que já nem duvido mais,
já não me preocupo tanto assim.

Em todos os lugares -
e isso eu não sei, apenas posso sentir
- estão as cores que deixei de enxergar.

14 abril, 2013

Impressões

De que lado nós estamos?
De que lado você está?
Esquerda?
Direita?


Enquanto eu olhava para o passado e pressentia o futuro
fui colhendo algumas impressões carregadas de sentimento
misturadas no meu corpo como se estivessem em um liquidificador.

Hoje cedo na rua Tenente Silveira,
a visão da índia sentada na calçada com seus filhos,
vendendo o seu artesanato, foi ali que bebi as primeiras impressões.

Continuei a olhar o passado e vieram mais impressões, mais sentimentos.

Nas mãos calejadas dos nordestinos que deixaram para trás sua terra natal
para tentar a sorte grande nas cidades de pedra assim como fez meu pai;

No rosto maquiado do travesti que só existe quando cai a noite;

Na fala muda do cidadão invisível de Alexandra Alencar;

No lombo cansado das multidões de trabalhadores nas filas da Previdência Social;

Nas costas arqueadas dos enormes bolos de carne esperando nas filas do SUS;

No choro dos seres multilados e trancafiados por suas escolhas;

No riso ezquisofrênico dos que são diferentes de mim e de você;

Na boca seca e rachada dos nóias da crackolândia;

Nos braços tatuados dos milhares de presos apodrecendo nas penitenciárias;

No olhar maldito dos policiais militares cheirando cocaína no vale do anhangabaú;

Nas pernas trêmulas dos moleques presos e espancados por fumar maconha;

No estômago torto da impotência e da humilhação perante as "autoridades";

Das invasões, das chacinas, das mortes e mais mortes causadas pela indiferença;

É o peso do martelo das diferenças.


De que lado nós estamos?
De que lado você está?
Esquerda?
Direita?

Eu estou do lado em que bate o meu coração.

17 janeiro, 2013

É pouca polpa aí o suco fica ralo

Um abraço demorado na porta da balada e o teu olhar desvendando corpos
como quem escolhe um leite condensado na prateleira do supermercado
É tudo leite condensado mesmo, então vai o mais barato!

Alguém se aproxima e pergunta como estou e isso faz meu estômago revirar
Distribuem sorrisos, dissimulando verdades, disseminando ilusões, semeando, semi-andando
A alegria em reconhecer é tão forjada que dói no peito que ainda tolera isto ou aquilo

Alguém se aproxima novamente e desta vez fala que é assim mesmo, "tá tudo certo"
Finjo prestar atenção mas meu pensamento voa em outro lugar longe de lá, longe, longe,
onde jorra o céu, as cores e os sabores, toda a vida que habita nesta pergunta: - Como vai você ?

Onde foi que deixei minhas tardes de sol?

Foi cedo ou talvez tarde, eu não saberia dizer, só sei que não foi tarde demais perceber o que há.
A água é boa, cristalina, inodora.
Mas de suco ralo eu passo tranquilo.

Francisco de Assis

08 janeiro, 2013

Apaguem as luzes

Tem dias em que a gente acorda do avesso, percebendo o mundo de fora para dentro
o que era um sentimento tornou-se hábito, aquilo que já foi rotina agora é descoberto.

Nesses dias as paixões se (con)fundem num mar de hábitos e hábitos e hábitos.
os hábitos que também se (con)fundem num mar de paixões e paixões e paixões.


Em dias assim me lembro de Jim Morrison cantando When the music is over:

"...Well the music is your special friend
     Dance on fire as it intends
     Music is your only friend    
     Until the end
     Until the end
     Until the end!..."

19 novembro, 2012

Brigadeiro de panela

Bastou passar por mim devagar acenando e sorrindo com o seu vestido.
Menina você ateou fogo na minha pele, inundou todas as expectativas.

Bastou passar por mim devagar cantando sua voz de chuva de primavera.
Eriçou cada pelo do corpo, e todo pensamento, derreteu o céu nos lábios.

Bastou passar por mim devagar com essa boca de chocolate meio amargo.
Que desassossêgo! e, eu nem precisei de uma panela de brigadeiro;

Meu coração declarou alegria múltipla dos órgãos.

Bastou você passar devagar.

11 novembro, 2012

A muleta dos vermes

Saudosa maloca, maloca querida,
                                                  [ salve família!
esperança é o nome da estação.

Nesse teatro cotidiano espetacular
eles querem nosso sangue, nosso suor
O desrespeito é constante e amordaçado
incutido na necessidade do indivíduo mordaz

Sou capaz de dissimular o sorriso de aprovação
um sorriso falso que inunda o sertão; não pelo meio;
mas caminha, desliza, respira e serpenteia pela margem

Um senhor verme de olhar indignado observa com desprezo.
Tudo isto que a sua muleta não pode comprar eu tenho de sobra,
talvez por isso você me tome por desajustado, músico, maloqueiro

Se não entendeu o recado, rebobina a fita, liga a tecla sap e assiste de novo.

Desta vez eu não vou dissimular o meu sorriso; este é sincero, da alma, da fonte.



30 outubro, 2012

Graves frequências

A morte levou consigo
coisas que jamais verei novamente
sabores que nunca mais serão os mesmos
lugares distantes onde nossos pés não pisaram.

Onde está a inspiração?
Aquela que move, que cria?

A expectativa é algoz da coragem, agora que toda palavra é carregada de significado e energia
e mesmo o medo intrínseco dos 'eus' tomarem o controle da situação
já não pode ser arrefecido pela confiança, irmã mais velha da desculpa e dos cubos de gelo.

(aqui é simples, gostoso e natural)
entrega
é um barril de nutella
ou uma caixa de paçocas

(aqui é onde estou só novamente)
entrego
também as vísceras de cada monstro
nocauteado em minha alma

apesar de estar cansado eu continuo a caminhar para onde (D)eus quiser.

22 outubro, 2012

Pretinha

Dorme mais um pouquinho
deixa que eu preparo um café
quando estiver pronto eu te acordo
pra gente desenhar essa manhã na toalha

Acende um jardim pra me ensinar de vez do que nós somos feitos

Eu quero você por perto,
por cima, de conchinha

Um passeio alucinado é esse teu cheiro de hortelã molhada de sereno depois de um dia ensolarado.
Pretinha, quando chegar aquele fim de tarde faz um bolo pra gente só pra eu derreter no seu colo.

17 setembro, 2012

Gratidão ao velho Hazz - (Sonhos)

Meu bom amigo Hazz.
Este sentimento assusta quando vem?
Quero dizer quando chega assim desse jeito;
inundando a cidade e arrastando o sol pela gola da camisa?
.
Sabes por que te digo isto?
Porque Sofia é prova de sua existência.
não apenas ela, mas também presentes de lá
de lugares onde estivemos despertos de sua ausência

Me pergunto se os Dragões vivem algo semelhante...

Quando digo que é assustador não significa que sou eu.
Sim, são os outros! Mas ainda bem que tenho você.
Pois confesso; naquele instante pensei em desistir.

Foi por pouco, e quase me deixo 'quedar'
Lembrei de suas palavras e fechei os olhos
Voltei ao jardim, onde minhas bolas de gude brincavam sem gravidade
então eu pude dançar, sem tempo nem espaço a nossa forma de amar.

Francisco de Assis

19 agosto, 2012

Sem saber pra onde ir

Um tanto esse novo quanto expresso em pedaços de gente
Do que exatamente nós precisamos para acabar com isso?

Vazio, inóspito, impregnado de vácuo este coração não anseia,
apenas bate e bate a "percepção rotativa" de Charles Mingus,
destilando batidas dentro do circulo mesmo sabendo e sentindo
que o pulso está ali, que a rítmica esta ali, que a paixão está ali

Eu vejo crianças famintas através do vidro do automóvel
o sol pinta a cor da desigualdade no rosto daquela menina
A vida acontece e revela esta bigorna presa ao calcanhar
Seremos capazes de enxergar com os olhos do coração?

Francisco de Assis

24 julho, 2012

Trinta Voltas

A primeira a chegar foi uma jabuticabeira
dividindo espaço com os antigos araçás
demorou dar frutos, mas cresceu forte

Logo veio bromélia, laranjeira, olhos-de-mulata, garapuvu
borboleta, alecrim, hortelã, ipê, araucária e gralha-azul
joão-de-barro, comigo-ninguém-pode, goiabeira, capim-limão
rosa branca, arruda, violeta, pimenta-de-cheiro, manjericão

Os pais semearam sonhos com brilho de jardim nos olhos
As crianças fizeram parquinho e cercado com pedrinhas

Este jardim nasceu ali,
cresceu ali, no coração deste rapaz.

Francisco de Assis

10 julho, 2012

Diálogos - para Já basta II de Charles Raimundo

"...Já é hora do jogo virar, disposto, na sede Meu caso é grave, eles querem sacudir as redes / Eu vim pra arrancar a trave...”
"Emicida"

Se não existe, criaremos
Se não funciona, um de nós conserta
Se vem de cima, temos asas
Se vier de baixo, conhecemos o terreno
Se for pra somar, estamos juntos 
Se tentar sub(trair), multiplicamos o fogo
Se for pra dividir, estamos juntos
Nossa determinação é maior.
Quer tentar a sorte? Eu não.
Acredito no amor, acredito nos meus.

Francisco de Assis


09 maio, 2012

Seja meu corpo por mim

A pedra nasce pedra
A flor nasce uma flor
O ser humano nasce

Não se engane, sou otimista,
peço água em minhas orações
Me emociona o sorriso honesto
o olhar curioso e despretensioso

Entretanto você insiste;
catalogar, enquadrar, aparar
cercear, customizar, dizimar

Até a mais alta hipocrisia putrefata
de seu ideário natalino e deformante

A pedra vai morrer pedra
A flor vai morrer uma flor
O ser humano vai morrer "algúem"

Francisco de Assis

18 abril, 2012

Diálogos I (Para Charles Raimundo - Já Basta I)

É política, não?
Não.
Dinheiro talvez, sim?
Não.
Soluções vomitadas para todos os gostos
Por aqueles que não conhecem nem o cheiro do problema

Perguntaram a você se a ração desse mês está boa?
Cruzaram seu caminho no latão, indo à feira comprar batatas?
Lavaram seus pés com o vinho tinto da indiferença?

Uns vieram para semear
Alguns vieram para cultivar
Outros vieram para pilhar a colheita

Eles tentam, e vão continuar tentando. Em vão.
Por que nós viemos para arrancar e transformar cabeças

Francisco de Assis

veja também Já Basta I, o poema que deu origem ao Diálogos I

22 fevereiro, 2012

Quarta-feira de cinzas

Fome
de som
de chêro
de tempêro

reflito ainda bêbado sobre esse "quê" intenso
somente uma força ancestral pode fazer aquilo

Foram vários os dias
de folia, amor e alegria
em momentos todos coloridos

logo hoje que o meu despertador tocou bem atrasado
enquanto eu sonhava mil sóis atravessando a janela

O dia acordou
com a mesma cor
da calça do detento

reflito ainda bêbado se; a fome tem cor ?
desço a colina e começo a prestar atenção

Algumas gaivotas
fedor de cela e mijo
crianças dormem na praça

reflito ainda bêbado se; a fome tem cor ?
então começo a rememorar outros carnavais

Lembro bem do dia
na praça da república
a cor da farda da polícia

reflito ainda bêbado se; a fome tem cor?
e finalmente - ainda bêbado - compreendo

Cru
simples
e visceral

essa fome é cinza

da cor da pele daquela menina
da cor da pele de um tubarão
da cor da miséria em questão
uma cor, de hipocrisia cristã

E quem se atreve a classificar os normativos?
sinta o privilégio, é quarta-feira de cinzas
amanhã alguém vem entregar a ração na porta

Francisco de Assis

20 fevereiro, 2012

Dilúvio

As palavras de Mr. Orwell tem ganhado forma a cada dia
seres avarentos congratulando e nomeando um novo herói
banalidade amordaçada já faz parte da sua cesta básica

Para onde vão os sonhos? Aonde se escondem as crianças?

Seu juramento de nada me serve, bastaria um sim ou não
levaria consigo essa marca da mentira? da desconfiança?
ao invés disso, responde aquilo que vem do seu coração

Os meus, os teus, onde estarão agora? Tu ainda respira?

Noutras preces eu vi o tempo rompendo a terra em ciclos
Água inundando o sertão, rochas pairando sobre a cidade
Um pássaro-corneta anunciando o que vinha pela frente..

partícula;
gotícula;

mãos em concha esperando o que beber cair do próprio sol
e o primeiro mercenário vendendo pódio em troca de carne
suor em troca de sangue, sangue as custas do pão e circo

Água, bastante água, uma enorme tempestade cair do céu
para lavar os teus olhos e, afogar o circo de horrores

voltar a terra traz beleza e esperança
amizade me faz sorrir e me leva a crer

Não se engane pois sou otimista peço água
todos os dias em minhas preces, peço água.

Francisco de Assis

09 fevereiro, 2012

Entre meios

Olhares atentos ao que nos resta de dignidade
passo torto, apressado, encontrando um começo
prefiro de ontem os canteiros que o entremeio
nas calçadas há poeira cobrindo desonestidade

Quem se atreve a apontar? É o mesmo currículo
Dá pra acreditar em quem? É o mesmo discípulo

Conversa "fiada" (um dia ele paga o que deve)
Evolução espiral de alma ou devir consolação?
Ainda assim prefiro canteiros que entre meios.


Francisco de Assis

25 janeiro, 2012

Aponte seus dedos

Vivo cercado de água, e, o que tem do lado de lá?
Atravesso a ponte e me identifico com o ambiente.
Sonho grudado no ferro do latão, sonâmbula gente.

O mecanismo é forte o bastante
trabalha dia e noite sem parar
e consegue mantê-los distantes

Tem informação? Então tem privilégio, é sabido
e quem deveria ser um aliado tornou-se inimigo

Você é, eu sou, e, ainda assim não somos
as vezes somamos em frações de milésimos
quando isso acontece surgem novos átomos

ele foi criado para o abate, mero serviçal
a serviço do clero, do nobre senhor feudal

Colombo Salles não apenas separa ilha e continente
também separa sonhos, separa humores, separa gente

Francisco de Assis

18 janeiro, 2012

Chora neném

Quando você nasce alguém bate na sua bunda
esperando choro para ver se você tem saúde
Eu digo que essa pancada vai um pouco além
Pois que no mundo de hoje você é o que tem

Ah meu amigo! bastaria que fossem honestos
e foi dito que até num lixão nascem flores
apenas sinceros como um sorriso de criança
onde nascem sonhos e um botão de esperança

Um pedaço de chão: tá caro
Comer o que é bom: tá caro
Estudar-trabalhar: tá caro
Passear no mundão: tá caro

Você me fita com esses olhos esbugalhados
de quem quer mais do que pode carregar
no final da história eu passo na boa
você precisa de seguro pra passear

Tá-claro-tá-caro-caro
Tá-claro-tá-caro-caro
Tá-claro-tá-caro-caro
Tá-claro-tá-caro-caro

Ainda bem que a arte resiste.

Francisco de Assis