14 abril, 2013

Impressões

De que lado nós estamos?
De que lado você está?
Esquerda?
Direita?


Enquanto eu olhava para o passado e pressentia o futuro
fui colhendo algumas impressões carregadas de sentimento
misturadas no meu corpo como se estivessem em um liquidificador.

Hoje cedo na rua Tenente Silveira,
a visão da índia sentada na calçada com seus filhos,
vendendo o seu artesanato, foi ali que bebi as primeiras impressões.

Continuei a olhar o passado e vieram mais impressões, mais sentimentos.

Nas mãos calejadas dos nordestinos que deixaram para trás sua terra natal
para tentar a sorte grande nas cidades de pedra assim como fez meu pai;

No rosto maquiado do travesti que só existe quando cai a noite;

Na fala muda do cidadão invisível de Alexandra Alencar;

No lombo cansado das multidões de trabalhadores nas filas da Previdência Social;

Nas costas arqueadas dos enormes bolos de carne esperando nas filas do SUS;

No choro dos seres multilados e trancafiados por suas escolhas;

No riso ezquisofrênico dos que são diferentes de mim e de você;

Na boca seca e rachada dos nóias da crackolândia;

Nos braços tatuados dos milhares de presos apodrecendo nas penitenciárias;

No olhar maldito dos policiais militares cheirando cocaína no vale do anhangabaú;

Nas pernas trêmulas dos moleques presos e espancados por fumar maconha;

No estômago torto da impotência e da humilhação perante as "autoridades";

Das invasões, das chacinas, das mortes e mais mortes causadas pela indiferença;

É o peso do martelo das diferenças.


De que lado nós estamos?
De que lado você está?
Esquerda?
Direita?

Eu estou do lado em que bate o meu coração.

01 abril, 2013

Com sentir

Falávamos sobre consenso.
Buscávamos o mútuo entendimento.

Um consentimento;
dois não.

COM sentimento
SEM sentimento

Agora é tarde.
Jamais saberemos.
Jamais CONsentiremos

29 março, 2013

Conversa de bar II

O garçom trouxe a bebida e um cinzeiro, passamos algum tempo observando as mesas ao redor, cheias de pessoas, cinzeiros, bebidas. O ruído de todas aquelas pessoas falando ao mesmo tempo dava uma sensação de limpar o ouvido com cotonetes.

Francisco estava sentado na outra extremidade da mesa, enquanto me fitava apagou o cigarro sem olhar para o cinzeiro;

- Assis, você é religioso?
- Sim.
- Então você tem uma religião?
- Não.
- Como assim?
- Não tenho uma religião.
- Não entendo, ser religioso então seria como ter uma filosofia de vida?
- Não.
- Mas você tem uma filosofia de vida?
- Não, uma não, tenho algumas.
- Não consigo conceber isto, para mim a minha filosofia de vida me norteia, é o que carrega tudo o quanto acredito ser e não ser dentre os valores sociais, éticos e morais, a minha crença e descrença etc... Ter mais de uma filosofia de vida seria como ter mais de um caráter.
- Caráter, sim; tenho inúmeros.

25 fevereiro, 2013

Tudo pelos cotovelos


Acho que nasci com manias.

Na verdade nasci com várias manias e sei que muitas eu fui adquirindo com o tempo.
E se digo que nasci com manias é porque algumas vieram comigo sabe-se lá de onde.

Por exemplo:

Tenho mania de falar, falar e falar pelos cotovelos
já tentei como alguns amigos ser mais discreto e menos falante
mas isso durou não mais que uma semana, talvez alguns dias.

Tenho mania de sonhar, sonhar e sonhar pelos cotovelos
já tentei como alguns amigos ser mais pé no chão e menos "viajante"
mas isso durou não mais que alguns dias, talvez algumas horas.

Tenho mania de amar, amar e amar pelos cotovelos
já tentei como alguns amigos "não mergulhar de cabeça" e ir "mais devagar"
mas isso durou não mais que alguns minutos, talvez alguns segundos.

Tenho mania de sentar em bancos de praça e ficar ali sentado, observando
pra ver se passa alguém que fale, sonhe, ame e que viva sem advertências.

Tenho mania de comer e falar de comida enquanto estou comendo.
Tenho mania de comentar música e de escutá-la com os poros.
Tenho mania de gostar de alguém cada dia mais e mais e mais.

Eu sei; sou cheio de manias, e posso até trocá-las por outras
mas continuo com elas,
as minhas manias.

Assis Monteiro.

05 fevereiro, 2013

Corações in-visíveis

Em tempo de antiga metrópole
vestir o caos é intuição
aqueles velhos óculos
da invisibilidade
da indiferença
dos 'outros'

Tenho dito que as multidões tem sensação de anonimato
andar neste mar de gente traz uma paz que é diferente

Em tempo de cansadas canções
despir-se é o necessário
daquela velha vaidade
da superficialidade
da intolerância
da ignorância

Assis Monteiro

23 janeiro, 2013

Farol

Ele nada sabe destes dias tão tranquilos
Traz nos ombros o conforto da ignorância
É metade paciência outra metade preguiça

Fatigado desse velho pensamento heróico
despojado de suas armas; uma de cada vez

Ele nada sabe destes dias tão finitos
Traz nos olhos o confronto do passado
É metade presente outra metade futuro

Ansioso em pintar seus próprios passos
calçado com a velha botina de seu pais

Ele nada sabe do tempo que lhe resta
Traz nos lábios o desconforto do fel
É metade fome outra metade sede

Melindroso por predizer dos mistérios
desta insondável esquina da vida

continua assim, caminha assim

com medo
com amor
com tudo

Assis Monteiro

17 janeiro, 2013

É pouca polpa aí o suco fica ralo

Um abraço demorado na porta da balada e o teu olhar desvendando corpos
como quem escolhe um leite condensado na prateleira do supermercado
É tudo leite condensado mesmo, então vai o mais barato!

Alguém se aproxima e pergunta como estou e isso faz meu estômago revirar
Distribuem sorrisos, dissimulando verdades, disseminando ilusões, semeando, semi-andando
A alegria em reconhecer é tão forjada que dói no peito que ainda tolera isto ou aquilo

Alguém se aproxima novamente e desta vez fala que é assim mesmo, "tá tudo certo"
Finjo prestar atenção mas meu pensamento voa em outro lugar longe de lá, longe, longe,
onde jorra o céu, as cores e os sabores, toda a vida que habita nesta pergunta: - Como vai você ?

Onde foi que deixei minhas tardes de sol?

Foi cedo ou talvez tarde, eu não saberia dizer, só sei que não foi tarde demais perceber o que há.
A água é boa, cristalina, inodora.
Mas de suco ralo eu passo tranquilo.

Francisco de Assis

09 janeiro, 2013

Conversa de bar I


(No bar)
Falávamos sobre música, literatura, poesia e um amigo me pergunta:

- Desde quando você escreve?
- Não me lembro...
- E porquê escreve?
- Boa pergunta, não sei dizer... agora me diz, você sonha quando dorme?

Assis Monteiro

08 janeiro, 2013

Apaguem as luzes

Tem dias em que a gente acorda do avesso, percebendo o mundo de fora para dentro
o que era um sentimento tornou-se hábito, aquilo que já foi rotina agora é descoberto.

Nesses dias as paixões se (con)fundem num mar de hábitos e hábitos e hábitos.
os hábitos que também se (con)fundem num mar de paixões e paixões e paixões.


Em dias assim me lembro de Jim Morrison cantando When the music is over:

"...Well the music is your special friend
     Dance on fire as it intends
     Music is your only friend    
     Until the end
     Until the end
     Until the end!..."

09 dezembro, 2012

Uma fonte de sonhos

Sentimento é assim.
Sinto que as vezes exagero um pouco,
e que poucas vezes exagero um tanto.

Das coisas do coração
encontrei um menino,
ali, deitado na grama;
brincava.

no momento em que encarei-o nos olhos,
o meu coração sorriu
e tudo o que existe sorriu também.

aos pés do menino nascia uma fonte,
e de lá brotavam os meus sonhos.


ao acordar eu ainda sorria
e o meu corpo dançava.

agora já não me sinto tão só.

vou lá levar
um novo copo
bem cheio de sonhos
para a fonte do meu menino.


05 dezembro, 2012

Querer bem alguém

Quando a água do mar abraçar o seu corpo
sinta-se acolhida

Quando um vento carinhosamente afagar seus cabelos
percebe; é um cafuné que eu sonhei acordado

Quando a terra estiver firme por onde você andar
lembra do carinho que eu sinto por você

Quando o sol aquecer as maçãs do seu rosto
recebe o beijo que eu mandei de longe

28 novembro, 2012

Canção de um céu azul


Mirar
o fim de uma era
ao pé de um vulcão

Abraçar
o começo da vida
no olho de um furacão

Deixar
escorrendo o tempo
na beleza viva das canções

Esperar
que o vento sul
transforme os nossos corações.

22 novembro, 2012

Preguiça


Amanheceu.

Nasceu esta poesia no espreguiçar do corpo.

O dia escorreu.

para além da cama, poesia viveu preguiça

Adiantado o relógio.

poesia nasceu, cresceu.

E foi morrer nos lábios cerrados

19 novembro, 2012

Brigadeiro de panela

Bastou passar por mim devagar acenando e sorrindo com o seu vestido.
Menina você ateou fogo na minha pele, inundou todas as expectativas.

Bastou passar por mim devagar cantando sua voz de chuva de primavera.
Eriçou cada pelo do corpo, e todo pensamento, derreteu o céu nos lábios.

Bastou passar por mim devagar com essa boca de chocolate meio amargo.
Que desassossêgo! e, eu nem precisei de uma panela de brigadeiro;

Meu coração declarou alegria múltipla dos órgãos.

Bastou você passar devagar.

16 novembro, 2012

Sonhei com você (uma sugestão poética)

Eu quero tanto os teus olhos por perto agora
pra gente ficar fazendo nada com a dança das horas,
cheirando pescoço, desenhando corpos brilhantes na retina
mordendo pedaços; brincando de carinhos na eternidade do edredom.

Eita chuva perfeita pra esquecer o despertador e preguiçar mais um pouquinho,
foi isso, coloquei o celular no soneca e dormi mais uns quinze minutos antes de levantar;
assim sonhei contigo dançando no meu corpo o teu abraço, a gente se conhecendo de perto.

Quanto desejo havia ali,
nas palmas das mãos,
nos fios de cabelo,
em cada ossinho das tuas pernas.

Foram 15 minutos de soneca e uma vida inteira sonhando.

Menina, eu te quero hoje, amanhã e depois.
E tem mais, sugiro que você venha aqui.
Que eu vou gostar demais.

11 novembro, 2012

A muleta dos vermes

Saudosa maloca, maloca querida,
                                                  [ salve família!
esperança é o nome da estação.

Nesse teatro cotidiano espetacular
eles querem nosso sangue, nosso suor
O desrespeito é constante e amordaçado
incutido na necessidade do indivíduo mordaz

Sou capaz de dissimular o sorriso de aprovação
um sorriso falso que inunda o sertão; não pelo meio;
mas caminha, desliza, respira e serpenteia pela margem

Um senhor verme de olhar indignado observa com desprezo.
Tudo isto que a sua muleta não pode comprar eu tenho de sobra,
talvez por isso você me tome por desajustado, músico, maloqueiro

Se não entendeu o recado, rebobina a fita, liga a tecla sap e assiste de novo.

Desta vez eu não vou dissimular o meu sorriso; este é sincero, da alma, da fonte.



07 novembro, 2012

Impermanência e a poesia

São dias onde o carma se apresenta nítido, líquido
e o véu de Maya se dissipa para dar lugar à luz
Querer, tem desejo e bastante suco gástrico
nada, ninguém, nenhuma voz, somente paz

Será talvez um traço reto atravessando o meu caderno?

Impermanência fascina tanto quanto aos 7 anos de idade
quando ganhei o meu primeiro video-game de presente

- Continuo me deliciando com estas curvas abruptas -

(Des)cobertas escolhas de marfim lustroso e caro
sopesadas em um banquete para Deuses e anjos.

Sim, explique-se até extenuar qualquer possibilidade!
Me apetece o que é do entendimento do coração;
e se mesmo assim não houver conciliação?
Relaxe. Aquele sorriso, aquele
dos sete anos de idade
vive aqui comigo.

06 novembro, 2012

Canto para todos os cantos

Canto ontem para entregar minhas promessas ao fogo
Corro entregue para despejar minhas posses ao vento
Vivo despido para despertar de minhas vidas na terra
Morrerei acordado para confiar na sabedoria das águas

30 outubro, 2012

Graves frequências

A morte levou consigo
coisas que jamais verei novamente
sabores que nunca mais serão os mesmos
lugares distantes onde nossos pés não pisaram.

Onde está a inspiração?
Aquela que move, que cria?

A expectativa é algoz da coragem, agora que toda palavra é carregada de significado e energia
e mesmo o medo intrínseco dos 'eus' tomarem o controle da situação
já não pode ser arrefecido pela confiança, irmã mais velha da desculpa e dos cubos de gelo.

(aqui é simples, gostoso e natural)
entrega
é um barril de nutella
ou uma caixa de paçocas

(aqui é onde estou só novamente)
entrego
também as vísceras de cada monstro
nocauteado em minha alma

apesar de estar cansado eu continuo a caminhar para onde (D)eus quiser.

22 outubro, 2012

Pretinha

Dorme mais um pouquinho
deixa que eu preparo um café
quando estiver pronto eu te acordo
pra gente desenhar essa manhã na toalha

Acende um jardim pra me ensinar de vez do que nós somos feitos

Eu quero você por perto,
por cima, de conchinha

Um passeio alucinado é esse teu cheiro de hortelã molhada de sereno depois de um dia ensolarado.
Pretinha, quando chegar aquele fim de tarde faz um bolo pra gente só pra eu derreter no seu colo.